Quand le rideau s’est baissé”, de Pierre Mille, é uma coleção de contos escritos no início do século XX. Eles reinterpretam de forma humorística a história, as lendas épicas e os mitos clássicos, utilizando ironia afiada para expor a vaidade, o poder, a fé e os acidentes que estão por trás dos “grandes” eventos. Esperem que personagens como El Cid, Colombo, os Reis Magos, Pigmalion e Hércules apareçam em cenas humorísticas e anacrônicas que questionam as versões oficiais e as posturas heroicas. O início da coleção oferece uma sequência de contos satíricos: primeiro, uma cena cômica sobre El Cid, na qual a mãe imperiosa de Chimène chega a Bivar, humilha Rodrigue e depois se apaixona pelo mouro capturado Almanzor; quando o resgate fracassa após a morte dos seus filhos, um estratagema sacerdotal salva-o através do casamento com a condessa enamorada, que então parte felizmente para a África. Em seguida, vem uma “história verdadeira” de Colombo, escrita em tom pseudocientífico, que atribui a descoberta a erros de interpretação linguística (Ka-tai/Catay, Coubanakan/Kublai Khan), a uma crise de dúvida e a um conselho no qual o juramento de sigilo é quebrado assim que o ouro é encontrado. Uma parábola mais sombria segue: um Rei Mago que retorna de Belém lamenta a vida de um rei sob constante ameaça; poupa um assassino, mas o amaldiçoa com o mesmo terror até que este implore pela morte. Depois, um contador reescreve a história de Pigmalion, mostrando que Galateia só estraga a obra do escultor; finalmente, Hércules, reduzido ao papel de servo de Omphale, conta a Dédalo como seus feitos famosos acabaram se tornando contra ele – livrando monstros apenas para desencadear pragas ainda piores e ganhando o desprezo dos oráculos. Juntos, esses contos estabelecem um tom de revisão sutil e reflexão moral.